The Daleks

The Daleks é o segundo arco da primeira temporada da série clássica e pode ser considerado um dos mais importantes de Doctor Who por ser a introdução dos Daleks. Para quem viu o filme An Adventure in Space and Time sabe que a ideia dos Daleks não foi bem recebida a início pelo produtor Sydney Newman. Mas o sucesso de audiência (que chegou a 10 milhões nos últimos episódios) provou a qualidade da história. O trecho do filme abaixo mostra as gravações desse episódio:

A história começa com o primeiro Doutor, Susan, Ian e Barbara viajando para um planeta (que depois descobrimos ser Skaro) em que tudo está petrificado, sem vida por causa de uma bomba nuclear de uma guerra passada. O Doutor, sempre curioso, quebra a TARDIS de propósito para que fiquem no planeta e possam explorá-lo. Existe essa curiosidade científica e senso de aventura nessa regeneração que domina as ações do personagem no início da série, tornando-o extremamente egoísta e colocando seus amigos em perigo com o único objetivo de descobrir coisas novas.

Barbara começa a ter uma relação amigável e sensível com Susan e Ian. Os professores ainda têm dificuldade em lidar com as viagens e principalmente, o Doutor, que continua iniciando discussões e brigas, com dificuldade de compreender as motivações humanas. Felizmente, ao longo das regenerações ele se torna mais compreensível graças aos companions que mudam ele, transformação que já começa aqui, com os discursos morais de Ian e Barbara.

Junto às relações entre os personagens, a carga psicológica de The Daleks é um de seus destaques. Por exemplo, no final do primeiro episódio temos a icônica cena de Barbara apavorada ao ser encurralada por um Dalek; já no segundo episódio, Susan precisa enfrentar seus medos e atravessar sozinha uma floresta sombria. Ao longo dos episódios, os medos e angústias dos personagens são transmitidos de maneira convincente e real, começando pela possibilidade de morrerem com a radiação do planeta.

Já que o Doutor quebrou a TARDIS de propósito, eles precisam procurar uma substância para consertar a nave. É quando descobrem os Daleks na cidade, que os levam como prisioneiros. Os Daleks contam sobre a guerra contra os Thals, e que precisam de radiação para sobreviver, ao contrário dos viajantes da Tardis, que estão a cada hora mais perto da morte. Apenas Susan tem condições de buscar o remédio contra radiação fora da cidade, e lá descobre que os Thals ainda estão vivos, porém lutando pela sobrevivência em um mundo pós-guerra.

Em sua estréia na série, os Daleks não agem tanto por ódio, mas são em primeiro lugar estrategistas, e criam uma armadilha ao prometerem ajudar os Thals se estes forem até a cidade. Como os personagens ainda são ingênuos quanto aos Daleks, a única escolha é confiar na boa vontade deles, e o Doutor e seus companheiros se juntam aos Thals em uma viagem à cidade dos Daleks.

Por ser um arco longo, houve muito espaço para desenvolver uma história à parte, entre os viajantes da TARDIS e os Thals. Isso faz o público torcer e ter simpatia pelo povo que o Doutor está ajudando, aspecto que sinto falta em muitas histórias da série clássica. Outra diferença é que os personagens secundários não são tediosos: os Thals pensam de maneira independente, refletindo sobre os perigos da guerra e muitas vezes discutindo entre si.

O tema de pacifismo se torna destaque por volta da metade do arco. Os Thals são pacifistas ao extremo: o líder não aceita a sugestão de Ian de que lutem contra os Daleks (nessa altura o plano verdadeiro dos Daleks de destruir os Thals já foi revelado), mesmo que isso signifique a morte da tribo. Somente após muita consideração, ele resolve lutar. Dessa forma o arco trata do assunto do pacifismo de uma maneira sutil, lembrando que a proposta inicial da série era de ser didática. Apesar de o arco terminar com conflito, acredito que a proposta foi defender o pacifismo mostrando a guerra como a última opção, reservada para quando realmente não houver outra escolha. Afinal, em qualquer história com personagens desse tipo, eles raramente demoram tanto pra desistirem do pacifismo como nesses episódios.

Como em toda boa história, as facilidades e os obstáculos são bem equilibrados. Já que os Daleks tem câmeras e monitoram tudo, muitas vezes eles estão um passo a frente, dificultando um pouco a história e mantendo-a consistente. Ao mesmo tempo, a falta de mobilidade dos Daleks é destacada diversas vezes por Ian, que utiliza isso a seu favor. Os perigos também parecem reais, desde os Thals ameaçados de extinção pela falta de comida até a caverna claustrofóbica e sem saída do penúltimo episodio. Outro fator interessante é que os Thals e Daleks só se encontram nos últimos episódios, criando ao longo do arco um clima de guerra com ataque e contra-ataque, estratégias e desespero pela sobrevivência.

A derrota dos Daleks é feita basicamente a força física, com pedras e madeiras, o que nos parece absurdo hoje. Apesar disso, quero destacar uma cena de plano contínuo que faz parte do ataque final, que me surpreendeu por ser uma raridade na série clássica, e ter sido um toque especial na direção do arco.

É absolutamente necessário assistir esse arco se você quer conhecer mais sobre a história da série. Mas esse não é o único mérito do arco, que não decepciona para quem só está assistindo casualmente. Muitas situações são bem feitas se comparadas a outros arcos da série clássica, que na minha opinião pecam muito na coerência e realismo. A história é consistente, se destacando pelo senso de aventura e atenção aos personagens. Há um ótimo equilíbrio entre ser um arco importante para a série e ser uma história simplesmente divertida. Talvez se não fosse esse arco, especialmente a introdução dos Daleks, Doctor Who não teria encantado tantos espectadores e decolado para ser a série que conhecemos hoje.

Veja abaixo um trailer de The Daleks feito por fãs:


 
 



Texto escrito por Bruna Schappo